Ana Paula Henkel

“O processo de se tornar um bom cidadão, de começar a entender política, acontece também na mesa de jantar em casa.”

Por Revista EXATO
13/05/2022 10:38:00

Foto: Vinicius Loures

Ana Paula Henkel

Com uma trajetória brilhante nas quadras de vôlei, onde fez parte da seleção brasileira que ganhou medalha de bronze na Olimpíada de 1992, em Barcelona, Ana Paula Henkel hoje também é conhecida e muito respeitada por suas análises e comentários políticos na programação da rede Jovem Pan e sua participação no programa 4 por 4, com Luís Ernesto Lacombe, Rodrigo Constantino e Guilherme Fiuza, que vai ao ar ao vivo, todos os domingos, no YouTube.  

Graduada em Arquitetura nos Estados Unidos, onde reside com sua família, Henkel ministra um curso sobre política americana, com mais de 60 horas de aulas, divididas em 15 módulos,  com introdução ao estudo da história e da política americana, abordando diversos tópicos, incluindo os fundamentos históricos, culturais e constitucionais da política americana; suas estruturas institucionais, como o sistema  eleitoral, o Congresso e a presidência, o comportamento político e social dos cidadãos americanos comuns, e debates contemporâneos sobre questões importantes como liberdade de expressão, movimentos identitários, polarização partidária, política externa e bastidores do poder.

Ana Paula Henkel foi uma das personalidades mais requisitadas pelos leitores da revista Exato no decorrer das edições. Por isso, nessa edição especial de 3 anos, ela concedeu uma entrevista exclusiva para a nossa repórter e editora-chefe, Thaís Partamian Victorello, onde fala sobre família, política, esporte e muito mais.  Confira:

 

Como se deu a influência de seus pais para que você fosse uma pessoa interessada por política?

 

A influência começou desde cedo na própria discussão deles como exemplo, não que nós entrássemos na discussão... Nessa época éramos crianças, adolescentes, mas a política sempre esteve muito presente na minha casa, em nosso dia a dia. A vontade dos meus pais em fazer parte do processo de decisões, de soluções e de propostas para a cidade... Havia também um incentivo para que nós tomássemos as rédeas das decisões. O processo de se tornar um bom cidadão, de começar a entender política, acontece também na mesa de jantar em casa. E não foi diferente na minha casa. Meus pais muito envolvidos  com toda a comunidade, no sentido de fazer parte mesmo dos rumos que tudo tomava, porque o futuro das filhas estava exatamente no processo de participação dessas decisões deles.

 

Como surgiu o seu interesse em tornar-se uma atleta profissional?  

 

Me lembro que eu tinha oito anos de idade quando assisti a Olímpiadas pela primeira vez. Foi a Olimpíadas de 1980, que aconteceu em Moscou... Eu tinha exatamente oito anos, eu assisti ela toda e chorei com a despedida do ursinho Misha, na festa de encerramento... Estamos falando de uma época que não tinha muita tecnologia, então o próprio estádio através de ensaios e de cartazes, fez a figura do ursinho com as pessoas segurando... Foi um momento que me marcou, porque eu fiquei ansiosa pra próxima Olimpíada que foi a de 84, aqui em Los Angeles. A nossa seleção masculina conquistou a prata e nessa época eu já tinha doze anos, já jogava vôlei. Eles se tornaram uma febre no Brasil. Eu falei pra minha mãe que eu queria jogar na seleção... Obviamente que eu estou falando de uma menina no interior... Minha mãe, falou “tá bom filha”. E enfiei isso na minha cabeça, falava isso para as minhas amigas, que um dia eu jogaria na seleção e muitas riam de mim, faziam chacota. Mas Deus, acho que ouviu o que estava no meu coração, preparou o meu caminho e o resto é história, né?

 

Como e quando você decidiu que era o momento de mudar-se para os Estados Unidos?

 

Nunca planejei morar nos Estados Unidos, foi o amor mesmo. Eu casei. Namoramos três anos, eu no Rio e ele aqui em Los Angeles. Quando eu entendi que ele era a pessoa que eu queria passar o resto da minha vida ao lado, nós nos casamos, em 2010. Com a distância, eu não sei como nosso namoro sobreviveu, mas sobreviveu... Quando nós casamos, alguém tinha que se mudar. Como eu conseguiria continuar a minha carreira aqui nos Estados Unidos, continuando a jogar vôlei profissionalmente na liga de vôlei de praia americana, que é uma das melhores ligas do mundo, então eu decidi vir pra cá com o meu filho. Não foi nada planejado antes de encontrar o meu marido, namorar e casar... Sempre tive uma vida muito boa no Brasil, por isso não tinha planos de sair. Eu sempre tive uma família muito bem estruturada com meu pai, a minha mãe, minha irmã e era hora de começar a investir numa família com os mesmos pilares para mim, por isso eu decidi vir pra cá.

 

Após uma carreira brilhante de mais de duas décadas no esporte, como foi a experiência de estudar arquitetura nos EUA?

 

A experiência foi maravilhosa, porque fazer arquitetura era uma coisa que eu sempre tive em mente, mas achava que eu nunca faria, porque o esporte tomaria muito do meu tempo, como tomou mesmo e acabei não conseguindo fazer faculdade no Brasil. Foi uma transição boa, porque normalmente carreira de atleta é muito ocupada, você está sempre em movimento... Muitos atletas entram em depressão depois de se aposentar, porque diminui bastante o ritmo e acho que isso também me ajudou a fazer uma boa transição. Eu saí de uma vida muito ocupada, para outra vida muito ocupada, mas ocupada intelectualmente.

 

Existe política por trás da arquitetura?

 

Essa é uma excelente pergunta... Existe sim política por trás da arquitetura. Muita gente acha que alguns movimentos, algumas estruturas e alguns períodos arquitetônicos são daquela maneira “porque são”... Porque alguém “achou bonito”, alguém quis inovar, quis mudar e não é... Na verdade, quase tudo na arquitetura existe um fundamento político social por trás. Muito também do meu interesse em me aprofundar na história política, começou com uma professora de História da Arte, que mostrava muitos movimentos políticos por trás de cada fase na arquitetura da humanidade... Por exemplo, o período Neogótico é como uma tentativa de resgate à conexão espiritual das pessoas... Tudo é muito elevado. Muitos dos elementos em formato de mãos, rezando, mãos orando... É uma tentativa de conectar o homem a vida, com a vida espiritual. Os períodos neogóticos vem logo depois de períodos muito tensos e confusos na humanidade, então você vê que existe sempre uma ligação com um período político. A própria arquitetura aqui dos Estados Unidos, no período dos Fournier’s, “Corrida do ouro”, era uma arquitetura Vitoriana, cheia de misturas e de elementos que mostravam exatamente como as pessoas estavam enriquecendo. Misturar estilos e vários outros períodos assim é fascinante... Passear pelos períodos arquitetônicos e ver que tinha uma estrutura política por trás das estruturas arquitetônicas, os próprios pais fundadores... Thomas Jefferson era arquiteto e existe, na Costa Leste dos Estados Unidos, uma arquitetura neoclássica, que é chamada arquitetura federalista, exatamente porque houve alguns elementos incorporados da cultura americana, mas um desses elementos do período clássico. Na arquitetura federalista, que vem da arquitetura neoclássica, há um triângulo que não fecha exatamente, lembrando aí as imperfeições políticas dos homens que foram corrompidos.

 

Em tempos de cancelamento você acredita que no decorrer da história as perseguições tomaram formas diferentes?

 

Claro... O cancelamento sempre existiu, né? Eu acho que o pior deles foi o da Revolução Francesa. Os Jacobinos atravessaram a história e hoje nós temos os “Jacobinos virtuais”, que “degolam as cabeças” virtualmente. Mas, a história mostra que esse cancelamento acaba voltando contra eles. A “guilhotina” acaba se voltando contra eles. O ruim dos cancelamentos é que muita gente não aguenta, tem depressão, sai das redes sociais e é compreensível, porque eu já sofri vários cancelamentos e é difícil mesmo... Você perde o apetite, fica ansioso, mas quem sabe que não fez nada de errado, não pode ficar pedindo desculpa por um crime que não cometeu... Nunca se curve, nunca se ajoelhe a uma multidão sedenta por sangue, porque eles não vão parar. Você pede desculpa uma vez e vai pedir pra sempre, então eu tem que mostrar resiliência, tem que mostrar força, aí você acaba desenvolvendo uma couraça, né? Os cancelamentos servem também pra hipocrisia dos outros... Para juntar um exército também do seu lado. Pessoas que aparecem pra se solidarizar com você. Mas, eu acho que os cancelamentos estão perdendo muita força, porque eles extrapolaram todos os limites do bom senso e da humanidade.

 

A ciência tem sido muito enaltecida, ao mesmo tempo em que parece não haver essa mesma valorização à ciência humana quando o assunto é transsexual no esporte feminino. Qual a sua opinião sobre essa disparidade?

 

Esse assunto não é sobre inclusão de transsexuais, mas sim exclusão de mulheres. Homens biológicos não serão mulheres no campo do esporte e não tem nada de transfóbico ou controverso nisso. É preciso respeitar como as pessoas decidem viver suas vidas socialmente, suas identidades sociais, mas o esporte não é baseado na identidade social. As pessoas escolhem o esporte baseado na identidade biológica e  identidade biológica só existe duas: homens e mulheres. As disparidades são enormes: corporais, hormonais, físicas, mentais, psicológicas, até o próprio processo de tomada de decisões. Tudo é diferente. Não tem absolutamente nada de transfobia nisso. E repito: as pessoas transsexuais, homossexuais elas têm que ser inseridas na sociedade pela capacidade profissional, sendo respeitadas como elas decidem viver, mas o esporte não tem nada a ver com essas escolhas. Se a partir de um determinado momento na sua vida você vai se parecer como uma mulher, porque é assim que você se sente, isso não muda o fato de que você tem um corpo masculino e isso no esporte é inaceitável... Está excluindo meninas, está excluindo mulheres e nós não vamos nos calar diante disso, porque é uma injustiça muito grande com as mulheres que demoraram tantos anos para conquistar os seus espaços.  

No início eu era muito cancelada por tocar nesse assunto. Hoje, cinco anos depois que a gente bate bastante nisso, com elegância, com argumentos do lado da ciência, muita gente (inclusive que não pensa como eu penso politicamente), hoje entende e fala “nessa realmente eu estou do seu lado”.

 

Com a eleição de Joe Biden na presidência americana, houve um enfraquecimento do movimento de direita conservadora que estava crescendo e ganhando força, tanto nos EUA como também no Brasil?

 

Eu creio que não... Acho que houve um fortalecimento da direita conservadora, porque os absurdos ficaram muito óbvios. A eleição americana de 2020 foi muito conturbada. Muitas perguntas sem respostas. Acho que o movimento está mais forte do que nunca... Acho que nunca esteve tão forte assim, desde os anos 80. Tamanhas barbaridades que a administração Joe Biden vem colocando como políticas públicas e a guerra cultural também, principalmente aqui nos EUA. O que tem feito, inclusive, os democratas “pesarem na balança” para votarem agora em republicanos... Essa invasão do estado na sua família, através dos filhos, da doutrinação dos filhos... Seja na política de identidade de gênero ou na “demonização” das religiões. Querer tirar o filho do seio da sua família é inaceitável e o Joe Biden recentemente disse em um vídeo que “os filhos não são das famílias, eles são nossos”, se referindo aos professores, doutrinadores das escolas, que eles que deveriam ter o aval do estado, da sociedade, para ensinar aos nossos filhos sobre a identidade de gênero e essa bobagem toda... Porque é uma bobagem essa política. Filhos não tem que estar na escola pra aprender educação sexual ou quem é gay, quem não é, quem é trans, quem não é... Eles têm que estar na escola para aprender matemática, biologia, geografia, química, física e todo o resto. A educação da criança, educação sexual, educação religiosa, isso pertence à família. E aí eu acho que o Joe Biden mexeu num vespeiro, que os pais americanos vão tomar conta disso.

 

Com a inflação mais alta das última quatro décadas, você acredita que os EUA possam perder o poder de compra?

 

Os Estados Unidos é um país que ainda tem muita “gordura”, para a economia, para aguentar alguns erros grotescos como os do Biden. Eu acho que o americano, nesse sentido, vai dar resposta nas urnas. Quando a vida é afetada dessa maneira, com prateleiras vazias, com as famílias tendo dificuldade pra pagar as suas hipotecas. Eu acho que o americano já perdeu um pouco o poder de compra.

 

Ainda há espaço para uma terceira via nas eleições presidenciais do Brasil este ano?

 

Não há espaço nem pra uma via que está aí, na cédula que é o Lula. Porque, que via é essa? Um condenado, um ex-presidiário, que foi solto com uma manobra porca, ilegal e imoral. Não tem terceira via e nem uma segunda via até agora... A via que temos é o presidente Jair Bolsonaro... Estamos no início de maio de 2022 e não há segunda e nem terceira via.

 

Você pensa em um dia voltar a morar no Brasil?

 

Não agora... Talvez quando os filhos já tiverem um caminho mais estabelecido. Meu filho está no terceiro ano da universidade. A minha enteada vai para a universidade no ano que vem, então a gente tem que ficar por aqui, dando uma estrutura, uma ajuda. Minha família é tudo. Então por mais que eles estejam “começando a bater asas”, queremos estar por perto. Sem sermos invasivos, mas por perto. Meu marido ama Petrópolis, ama o Brasil... A gente pensa em morar um tempo lá sim, mas só daqui alguns anos.

FONTE: Revista EXATO

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